No sertão e no litoral do Nordeste, povos indígenas como os Pankararu, os Kariri-Xocó, os Fulni-ô, os Atikum e os Xukuru dançam o toré: uma roda de canto e maracá que é, ao mesmo tempo, oração e afirmação de quem eles são. A mesma palavra também já foi usada para um culto de cura de Alagoas, parente do catimbó. São duas coisas diferentes, e é bom separá-las.
O toré dos povos indígenas
O toré é uma dança ritual coletiva, em roda. Um puxador canta e o grupo responde, marcando o ritmo com batidas fortes dos pés e com o maracá, o instrumento principal. O antropólogo Rodrigo Grünewald o descreve como a prática mais comum entre os indígenas do interior do Nordeste.

Ele tem duas faces. Uma é pública: festiva e política, dançada nas aldeias, nas cidades e nas mobilizações. A outra é reservada: as reuniões de cura, em que entra a jurema, árvore sagrada cuja bebida tem nomes próprios em cada povo. Cada povo tem a sua forma; como diz o título de um estudo, «cada jurema é uma jurema».
Alguns povos têm também rituais fechados, como o Ouricuri dos Fulni-ô e dos Kariri-Xocó, um tempo de retiro espiritual. Um autor Kariri-Xocó lembra que esse cerimonial é sagrado e não pode ser revelado aos brancos — e por isso não falamos dele aqui.
O toré como prova de existência
No século XX, o toré ganhou um papel político. O Serviço de Proteção aos Índios, o SPI, exigia que um grupo dançasse o toré como «atestado» de que era indígena antes de reconhecer seu território. O antropólogo João Pacheco de Oliveira conta o caso dos Atikum, reconhecidos depois que um inspetor os viu dançar um «toré arroxado». A partir dos anos 1930, o toré e a jurema se espalharam de um povo a outro pelas visitas dos pajés, e se tornaram centrais no ressurgimento de povos que o Estado tinha dado como extintos.
Houve perseguição. Em Porto Real do Colégio, em Alagoas, antes de o posto indígena ser criado, em 1944, a polícia proibia os Kariri-Xocó de dançar o toré na rua — um relato registrado por um autor do próprio povo. O primeiro registro bem estruturado de um ritual com jurema é de 1938, entre os Pankararu, de Pernambuco; no mesmo ano, a Missão de Pesquisas Folclóricas de Mário de Andrade gravou o toré deles.
O toré de Piaçabuçu
Nos anos 1950, o folclorista Alceu Maynard Araújo pesquisou em Piaçabuçu, na foz do São Francisco, um culto de cura chamado toré, que ele descreve no livro Medicina rústica (1961) como «o mesmíssimo catimbó». Não havia tambor: só o maracá, o cachimbo para a defumação e a jurema. Os caboclos eram chamados por cantos, os «linhos», diante de uma mesa chamada «piana», e o dirigente, o «presidente», usava um cocar. Havia rezas a Jesus e aos santos, e Santa Bárbara abria a mesa. As reuniões eram às quartas e aos sábados.
Araújo registra também a perseguição: antes das batidas dos «perna preta», os soldados da polícia, o toré era feito ao ar livre, diante de um cruzeiro; depois passou para dentro da casa.
Respeito
O toré indígena não é «dança folclórica»: é ritual religioso e político de povos com território e história. O fundamento é deles, e só eles podem ensiná-lo.
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Fontes
- João Pacheco de Oliveira — «Uma etnologia dos ‘índios misturados’?», Mana, 1998
- Rodrigo de Azeredo Grünewald — «Nas trilhas da jurema», Religião & Sociedade, 2018
- Rodrigo Grünewald e Robson Savoldi — «Cada jurema é uma jurema», Revista del CESLA, 2020
- Alceu Maynard Araújo — Medicina rústica (Brasiliana, 1961)
Foto da capa: Cícero R. C. Omena — Wikimedia Commons, licença CC BY 2.0.






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