O candomblé não nasceu pronto. Antes dos grandes terreiros, com hierarquia, festas públicas e muitos orixás cultuados juntos, havia no Brasil colonial o que os documentos chamavam de calundu. Contar essa passagem é contar como o povo africano escravizado reconstruiu a sua fé longe de casa (leia Tráfico atlântico: de onde vieram os povos do axé).
O que era o calundu
Calundu é palavra de origem banto. Nos séculos XVII e XVIII, ela designava as práticas religiosas africanas: adivinhação, cura com ervas, música de tambores, danças e transe. O poeta Gregório de Matos já zombava dos calundus na Bahia do século XVII, e as autoridades da Igreja e da Inquisição os perseguiam como «feitiçaria» — foi assim que a historiadora Laura de Mello e Souza os encontrou nos arquivos.
Um dos casos mais conhecidos é o de Luzia Pinta, africana de Angola, liberta, que mantinha um calundu em Sabará, em Minas Gerais. Ela atendia pessoas de todas as cores, que a procuravam para curar doenças e descobrir a causa de seus males. Foi presa e levada para a Inquisição de Lisboa por volta de 1742; o antropólogo Luiz Mott reconstituiu a sua história.
O calundu era, em geral, centrado numa pessoa — o sacerdote ou a sacerdotisa e quem o procurava. Ainda não era uma comunidade organizada como os terreiros de hoje.
Irmandades, batuques e nações
Nas cidades, africanos e seus descendentes se reuniam em irmandades católicas — como as de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos e da Boa Morte —, que ajudavam nos enterros, compravam alforrias e serviam de ponto de encontro. Muitas eram organizadas por nação: angolas, jejes, nagôs. Nos fins de semana, os batuques reuniam cada nação com seus tambores e suas línguas.
Nasce o candomblé
No começo do século XIX, a palavra candomblé passa a aparecer nos documentos da polícia da Bahia. O historiador Luis Nicolau Parés mostrou que, nessa época, o culto deixou de ser apenas o atendimento de um sacerdote e virou comunidade: uma casa com hierarquia, iniciação, calendário de festas e vários orixás e voduns cultuados juntos, num mesmo espaço. Os jejes tiveram papel importante nesse modelo, e os nagôs, que chegavam em grande número, deram a ele muitas de suas palavras e de seus ritos (leia Dicionário jeje).
É dessa época, segundo a tradição oral, o terreiro da Barroquinha, em Salvador, que daria origem à Casa Branca do Engenho Velho. E a vida de sacerdotes como Domingos Sodré, africano nagô preso pela polícia de Salvador em 1862, contada por João José Reis, mostra como o candomblé resistiu à repressão e ganhou adeptos de todas as origens.
Leia também
- Tráfico atlântico: de onde vieram os povos do axé
- Casa Branca do Engenho Velho
- As principais nações de Candomblé
- Voduns: as divindades do candomblé jeje
Fontes
- Luis Nicolau Parés — A formação do candomblé: história e ritual da nação jeje na Bahia (Editora da Unicamp, 2006)
- Laura de Mello e Souza — O diabo e a Terra de Santa Cruz (Companhia das Letras, 1986)
- Luiz Mott — «O calundu angola de Luzia Pinta: Sabará, 1739» (Revista do IAC, Ouro Preto, 1994)
- João José Reis — Domingos Sodré, um sacerdote africano: escravidão, liberdade e candomblé na Bahia do século XIX (Companhia das Letras, 2008)






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