Acervo das religiões afro-brasileiras desde 2012

Portal Afroxé

O maior portal das religiões afro do Brasil

,

Tráfico atlântico: de onde vieram os povos do axé — bantos, jejes e nagôs

Africanos numa praia da costa da África olhando um veleiro no horizonte

As religiões de matriz africana no Brasil nasceram de uma das maiores tragédias da história: o tráfico atlântico de pessoas escravizadas. Entre os séculos XVI e XIX, cerca de 12 milhões e meio de africanos foram embarcados à força para as Américas. Segundo o banco de dados Slave Voyages, perto de 5 milhões desembarcaram no Brasil — mais do que em qualquer outro país. Com eles vieram línguas, saberes, músicas e a fé nos orixás, nos voduns e nos inquices, que resistiram a tudo e chegaram até nós.

Os quatro ciclos do tráfico

O fotógrafo e etnólogo Pierre Verger, que viveu entre a Bahia e o golfo do Benim, dividiu o tráfico para o Brasil em quatro ciclos, conforme a região da África de onde vinha a maioria das pessoas:

  • Ciclo da Guiné (século XVI): da costa oeste, entre o Senegal e a Serra Leoa;
  • Ciclo de Angola e do Congo (século XVII): povos bantos da África Central, que foram a maioria por muito tempo e se espalharam por quase todo o país;
  • Ciclo da Costa da Mina (boa parte do século XVIII): da região que hoje vai de Gana ao Benim;
  • Ciclo do golfo do Benim (de cerca de 1770 a 1850): a fase que trouxe à Bahia os jejes e, sobretudo, os nagôs.

Bantos, jejes e nagôs

Os bantos — de Angola, do Congo e, mais tarde, de Moçambique — deixaram a marca mais antiga e mais larga na cultura brasileira, das palavras do dia a dia ao candomblé de nação Angola e à Umbanda (leia Nação Angola: história dos povos banto e Dicionário banto).

Os jejes eram os povos do antigo reino do Daomé, hoje Benim, que trouxeram o culto dos voduns (leia Voduns: as divindades do candomblé jeje). Os nagôs eram os iorubás. No começo do século XIX, as guerras que derrubaram o grande Império de Oyó lançaram milhares deles nos navios negreiros; chegaram à Bahia em tão grande número que a língua e o culto dos orixás iorubás passaram a dar o tom de muitos terreiros (leia Dicionário iorubá do candomblé).

Resistência

Escravizados não aceitaram passivamente o cativeiro: fugiram, formaram quilombos, compraram a própria liberdade, criaram irmandades e se revoltaram. Em janeiro de 1835, em Salvador, africanos muçulmanos — a maioria nagôs — fizeram a Revolta dos Malês, estudada pelo historiador João José Reis. E, nas senzalas e nos bairros das cidades, a fé foi reorganizada em comunidade: é a história contada em Do calundu ao candomblé.

O fim do tráfico e o refluxo

Uma lei de 1831 proibiu o tráfico, mas não foi cumprida. Só a Lei Eusébio de Queirós, de 1850, o encerrou de fato, e a escravidão acabou apenas em 1888, com a Lei Áurea. Verger mostrou também o refluxo: libertos que voltaram à África — os agudás, que até hoje mantêm sobrenomes portugueses no Benim e na Nigéria — e comerciantes que levavam e traziam, entre os dois lados do oceano, panos da costa, noz-de-cola e outros artigos usados nos terreiros. O Atlântico, como escreveu o historiador Alberto da Costa e Silva, virou um rio entre a África e o Brasil.

Leia também

Fontes

  • Pierre Verger — Fluxo e refluxo do tráfico de escravos entre o golfo do Benin e a Bahia de Todos os Santos (Corrupio, 1987)
  • Slave Voyages — banco de dados do tráfico transatlântico de escravizados
  • João José Reis — Rebelião escrava no Brasil: a história do levante dos malês em 1835 (Companhia das Letras, 2003)
  • Alberto da Costa e Silva — Um rio chamado Atlântico: a África no Brasil e o Brasil na África (Nova Fronteira, 2003)

Comentários

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Os comentários passam por aprovação antes de aparecer. Respeito a todas as casas e tradições.

Receba as novidades

Artigos, notícias e eventos do axé no seu e-mail.

Leia também

Editorias

Da Biblioteca do Axé

Estrela MísticaEstrela MísticaMagia, espiritualidade e autoconhecimento: chamas gêmeas, numerologia, mantras, cristais e rituais.Conhecer a Estrela Mística

Do acervo

Continue lendo