No bairro de São Benedito, em Olinda, um terreiro guarda uma tradição que, segundo os pesquisadores, só sobreviveu ali: a Nação Xambá. Em volta da casa formou-se uma comunidade inteira, o Quilombo Urbano do Portão do Gelo, com cerca de 2.500 pessoas que se reconhecem quilombolas.
De onde vem o nome
Xambá — ou Chamba, Tchambá — é o nome de povos da região dos montes Adamawa, na fronteira entre a Nigéria e Camarões. A historiadora Valéria Gomes Costa comparou os rituais da casa de Olinda com práticas desses povos africanos e encontrou pontos em comum (leia Tráfico atlântico).
Fugindo da perseguição
A história começa em Alagoas. Em fevereiro de 1912, os terreiros de Maceió foram destruídos no episódio conhecido como Quebra de Xangô (leia Xangô do Nordeste e o Sítio de Pai Adão). O babalorixá Artur Rosendo Pereira deixou Alagoas e, nos anos 1920, já atuava no Recife.
Entre os filhos que iniciou estava Maria das Dores da Silva, a Maria Oyá, que por volta de 1930 abriu no Recife o Terreiro Santa Bárbara, a casa-mãe da nação. Durante o Estado Novo, a polícia apreendeu peças de culto da casa, e o terreiro precisou fechar as portas por anos.
Mãe Biu e o Portão do Gelo
A reabertura veio com Severina Paraíso da Silva, a Mãe Biu, filha de Ogum. No começo dos anos 1950 ela levou a casa para o Portão do Gelo, em Olinda — o nome vem de uma antiga fábrica de gelo do lugar. Mãe Biu dirigiu o terreiro por décadas, até falecer em 1993, e reuniu ali a família de sangue e a família de santo.
Hoje a casa é conduzida por Adeildo Paraíso da Silva, o Pai Ivo de Xambá. Em julho de 2021 ele recebeu o título de doutor honoris causa da Universidade Federal de Pernambuco — o primeiro sacerdote de religião de matriz africana a receber essa honra no estado.
Os orixás e o coco
Os orixás do Xambá são praticamente os mesmos do candomblé, mas a forma de cultuá-los tem jeito próprio, herdado da casa-mãe. Da comunidade também nasceu uma música: em 2001, Guitinho da Xambá criou o Grupo Bongar, que leva aos palcos o coco da Xambá, tocado nas festas do terreiro. Guitinho faleceu em 2021, aos 38 anos, e o grupo segue na estrada.
Patrimônio e memória
Na segunda metade dos anos 2000, o Portão do Gelo foi reconhecido como quilombo urbano, e em 2018 a Nação Xambá recebeu o título de Patrimônio Vivo de Pernambuco. Ao lado do terreiro funciona o Memorial Severina Paraíso da Silva, com fotos e objetos que contam a história da casa. A Câmara de Olinda criou ainda o Dia Municipal do Quilombo Urbano do Portão do Gelo, em 13 de dezembro.
Como toda casa de axé, o Xambá é um templo vivo: quem visita em dia de festa pública segue as orientações da comunidade, e os fundamentos são ensinados por ela.
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