Quando se fala em religião dos orixás no Brasil, muita gente pensa logo na Bahia. Mas o estado onde, proporcionalmente, mais gente se declara de religião de matriz africana é o Rio Grande do Sul: no Censo de 2022, 3,2% dos gaúchos disseram ser de Umbanda ou Candomblé, a maior proporção do país. Boa parte dessa história passa pelo Batuque, também chamado de Nação.
Como nasceu
Os primeiros terreiros surgiram provavelmente em Rio Grande e Pelotas, no sul do estado, na primeira metade do século XIX — o antropólogo Norton Corrêa situa o começo entre 1833 e 1859, entre escravizados e seus descendentes. Depois o culto chegou a Porto Alegre, onde jornais das décadas de 1870 e 1880 já noticiavam prisões de praticantes — sinal de que a religião existia e era perseguida (leia Do calundu ao candomblé).
As nações, ou «lados»
O Batuque se organiza em nações, que os batuqueiros chamam de lados. São cinco:
- Oyó — tida como a mais antiga no estado, hoje quase extinta;
- Ijexá — a mais praticada hoje;
- Jeje — já foi a principal;
- Cabinda — de origem banto, com forte culto aos ancestrais;
- Nagô — considerada uma das raízes do culto, hoje quase extinta.
Muitas casas combinam dois lados, como Ijexá-Jeje. Segundo o antropólogo Ari Pedro Oro, o Ijexá cresceu, entre outros motivos, porque faltavam tamboreiros formados nos toques dos outros lados. A nação Ketu, a mais comum na Bahia, praticamente não existia no Batuque — só chegou recentemente, com o candomblé.
Os orixás do Batuque
O Batuque cultua doze orixás: Bará, Ogum, Oiá (Iansã), Xangô, Odé, Ossanha, Obá, Xapanã, Bêji (Ibeji), Oxum, Iemanjá e Oxalá. O Bará — nome que o Exu iorubá recebe no Sul (leia Exu, o orixá mensageiro) — abre a lista e é o primeiro a ser saudado. As rezas são cantadas em iorubá em todos os lados (veja o Dicionário iorubá do candomblé), e o nome «batuque» vem da base percussiva do ritual.
Caboclos e pretos velhos não fazem parte do Batuque: são entidades da Umbanda (leia Umbanda: as linhas e as entidades). A partir dos anos 1960 surgiu a Linha Cruzada, que reúne no mesmo terreiro os orixás do Batuque, a Umbanda e o culto de exus e pombagiras. Oro estima que a maior parte das casas gaúchas siga hoje a Linha Cruzada.
O Bará do Mercado e o Príncipe Custódio
No chão do Mercado Público de Porto Alegre, um mosaico marca o lugar onde, segundo a tradição, foi assentado um Bará. Muitos batuqueiros visitam o local para pedir caminhos abertos e prosperidade. A tradição liga esse assentamento ao Príncipe Custódio, apresentado como príncipe africano, que chegou a Rio Grande em 1899, mudou-se para Porto Alegre em 1901 e faleceu em 1935. Ele foi o maior divulgador do lado Jeje, e sua figura até hoje é cercada de histórias e discussões.
Além da fronteira
A partir dos anos 1960, sacerdotes e sacerdotisas gaúchos levaram o Batuque para a Argentina e o Uruguai, onde a religião cresceu muito nos anos 1980.
Os fundamentos de cada lado são ensinados dentro de cada casa, pelo sacerdote ou pela sacerdotisa. O que está aqui é a história pública de uma religião que ajudou a fazer do Sul um dos lugares mais fortes do axé no Brasil.
Leia também
- Xangô do Nordeste e o Sítio de Pai Adão
- Nação Xambá, o quilombo urbano de Olinda
- Exu, o orixá mensageiro
- As principais nações de Candomblé
Fontes
- Ari Pedro Oro — «Religiões afro-brasileiras do Rio Grande do Sul: passado e presente», Estudos Afro-Asiáticos, v. 24, n. 2, 2002
- Norton F. Corrêa — O Batuque do Rio Grande do Sul: antropologia de uma religião afro-rio-grandense (1992; 2ª ed. Cultura & Arte, 2006)
- IBGE — Censo 2022: religiões






Deixe um comentário