Antes de existir no Brasil a palavra «candomblé», já se cultuavam aqui os voduns: as divindades do povo fon e de seus vizinhos, do antigo reino do Daomé, onde hoje fica o Benim. Trazidos pelos africanos escravizados que o Brasil chamou de jeje, os voduns formaram duas das tradições mais antigas do país: o tambor de mina do Maranhão e o candomblé jeje da Bahia.
Quem são os voduns
Vodun, em fon, quer dizer o que é misterioso, sagrado. No topo está Mawu-Lissa, o casal criador — Mawu, a lua; Lissa, o sol. Abaixo, os voduns governam as forças do mundo e se organizam em famílias: a do trovão (Heviossô, ou Kevioso), a da terra (Sakpatá), a da serpente (Dan) e, no Maranhão, a família real do Daomé, chamada Davice. Muitos voduns têm parentes próximos entre os orixás iorubás, porque os dois povos foram vizinhos por séculos (leia Dicionário jeje).
- Legba — o mensageiro e guardião dos caminhos;
- Gu — o vodum do ferro;
- Sakpatá — a terra, as doenças e a cura;
- Heviossô — o trovão e a justiça;
- Dan e Bessém — a serpente e o arco-íris, a continuidade e a riqueza;
- Loko — a gameleira, árvore sagrada envolvida em pano branco nos terreiros;
- Agué — a mata e as folhas.
A Casa das Minas e a rainha do Daomé
Em São Luís, a Casa das Minas — Querebentã de Zomadonu — é uma das casas de culto africano mais antigas do Brasil, fundada no século XIX. Ali só as mulheres, as vodunsis, entram em transe, e o vodum dono da casa é Zomadonu, da família real Davice. O etnógrafo Sergio Ferretti descreveu sua vida religiosa em detalhe.
Pierre Verger levantou, em 1952, uma hipótese que ficou famosa: a de que a casa teria sido fundada por Nã Agontimé, rainha-mãe do rei Guezo do Daomé, vendida como escrava por um rival no fim do século XVIII. A hipótese nunca foi provada, mas explicaria por que a Casa das Minas cultua justamente os voduns da família real daomeana.
O jeje na Bahia
Na Bahia, o jeje mahi se firmou em casas como o Bogum, em Salvador, e a Roça do Ventura (Seja Hundé), em Cachoeira. O historiador Luis Nicolau Parés mostrou que o jeje esteve no centro da formação do candomblé baiano: palavras, ritos e organização vindos do Daomé se misturaram aos dos iorubás e ajudaram a dar forma ao candomblé que conhecemos (leia A nação jeje e sua origem).
Ouça
Oxumarê, o orixá do arco-íris, é o parente iorubá mais próximo de Dan e Bessém, os voduns-serpente:
Leia também
- Dicionário jeje
- A nação jeje e sua origem
- Oxumarê, o orixá do arco-íris
- As principais nações de Candomblé
Fontes
- Luis Nicolau Parés — A formação do candomblé: história e ritual da nação jeje na Bahia (Editora da Unicamp, 2006)
- Sergio Ferretti — Querebentã de Zomadonu: etnografia da Casa das Minas do Maranhão (EDUFMA, 1985)
- Pierre Verger — «Le culte des vodoun d’Abomey aurait-il été apporté à Saint-Louis de Maranhon par la mère du roi Ghézo?» (Les Afro-Américains, IFAN, 1952)
- Pierre Fatumbi Verger — Orixás: deuses iorubás na África e no Novo Mundo (Corrupio, 1981)






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