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A criação do mundo na mitologia iorubá: Olodumarê, Obatalá e Odudua

Galinha-d'angola espalhando terra sobre o oceano primordial sob uma corrente dourada

Como o mundo começou? Os iorubás, povo da atual Nigéria e do Benim de onde vieram muitos dos africanos escravizados no Brasil, guardam uma resposta cheia de imagens: um oceano sem fim, uma corrente que desce do céu, uma galinha que espalha a terra. É a história que explica por que Ilê-Ifé é a cidade sagrada dos iorubás — o lugar onde a terra nasceu.

Antes de tudo, Olodumarê

No começo, havia o céu, o Orum, morada de Olodumarê, o Ser Supremo, e embaixo só havia água e pântano. Olodumarê não desce ao mundo nem recebe culto direto: governa tudo por meio dos orixás, a quem entrega tarefas (leia A mitologia iorubá é monoteísta). A criação da terra firme foi uma dessas tarefas.

A corrente, a terra e a galinha de cinco dedos

Pierre Verger, Reginaldo Prandi e, antes deles, o historiador iorubá Samuel Johnson registraram a história. Olodumarê entregou a Obatalá (Oxalá) o saco da criação, com a terra, e o mandou descer. Obatalá, porém, não fez as oferendas pedidas antes da viagem; no caminho, bebeu vinho de palma e adormeceu (leia Oxalá, o orixá da criação).

Odudua pegou o saco e desceu do céu por uma corrente. Sobre as águas, despejou a terra e soltou uma galinha-d’angola de cinco dedos, que ciscou e espalhou a terra para todos os lados, até que o chão firme se estendeu sobre o pântano. Olodumarê mandou o camaleão conferir se a terra já estava firme; depois de algumas idas, ele confirmou. O lugar onde tudo começou recebeu o nome de Ifé — «o que é largo», «o que se espalhou» —, e Odudua se tornou o primeiro rei dos iorubás.

A criação dos seres humanos

Obatalá, ao acordar, recebeu outra tarefa: modelar os corpos das pessoas. Segundo Prandi, ele tentou vários materiais até que Nanã lhe deu o barro do fundo do lago, com a condição de que um dia ele voltasse a ela (leia Nanã, a orixá mais velha). Com o barro modelado, Olodumarê soprou a vida, o emi.

Verger conta ainda que, numa das vezes em que bebeu vinho de palma, Obatalá modelou pessoas com o corpo diferente dos demais. Ao perceber, arrependeu-se e tomou para si a proteção de todas elas — e proibiu o vinho de palma aos seus filhos. Por isso, até hoje, Oxalá é visto como o protetor das pessoas com deficiência.

Por que essa história importa

O mito da criação explica muita coisa que se vê nos terreiros: a reverência a Oxalá como pai da humanidade, o lugar de Ifé como origem, o respeito pela terra, o barro que volta a Nanã. As versões variam — em algumas, é Odudua quem cria tudo; em outras, Obatalá cumpre a missão — e essa variação é própria de uma tradição oral viva, contada em muitas cidades ao longo de séculos.

Leia também

Fontes

  • Pierre Fatumbi Verger — Orixás: deuses iorubás na África e no Novo Mundo (Corrupio, 1981)
  • Pierre Fatumbi Verger — Lendas Africanas dos Orixás (Corrupio)
  • Reginaldo Prandi — Mitologia dos Orixás (Companhia das Letras, 2001)
  • Samuel Johnson — The History of the Yorubas (1921)

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