Em iorubá, ọ̀sà quer dizer lagoa. Olossá (Ọlọ́sà) é a dona da lagoa. No Brasil, ela aparece entre os filhos de Iemanjá, sempre perto de Olokun, a dona do mar. Nas fontes iorubás, o que mais aparece é a própria lagoa: a palavra, a paisagem e o lugar dela ao lado do mar.
O nome: dona da lagoa
Em 1852, o bispo iorubá Samuel Ajayi Crowther publicou o primeiro grande dicionário da língua. Nele, Ossa é o nome da lagoa perto de Badagry, na costa. Juntando oní (dono) e ọ̀sà (lagoa), forma-se Ọlọ́sà: a dona da lagoa. É a mesma regra que faz do dono da banca no mercado o ọlọ́jà.
Atenção ao acento. Com ṣ (som de «x»), ọlọ́ṣà quer dizer ladrão. Crowther registra essa palavra, e o historiador iorubá Samuel Johnson fala do «Olosa», o palhaço que imitava roubos numa festa de Oyó. Por isso a dona da lagoa se escreve com s simples.
O mar e a lagoa no verso de Ifá
Para os iorubás da costa, mar e lagoa andam juntos. Num verso de Ifá publicado pelo professor Wande Abimbola, Orunmilá vai fazer adivinhação «apá Òkun, ìlàjì Ọ̀sà»: no fim do mar, a meio caminho na lagoa. Sobre Ifá, leia Culto de Ifá: Orunmilá, os babalaôs e os 256 odus.
Crowther registra também um provérbio: o mundo é um oceano, e a humanidade é a lagoa. Por melhor que se nade, ninguém atravessa o mundo inteiro. Em Lagos, até hoje se dá a um filho o nome Òkúnmẹ́hìntọ̀sà, «o mar se apoia na lagoa».

Em Ifé, a esposa que virou lagoa
Em 2018, um jornal de Lagos publicou uma tradição do palácio do Ooni, o rei de Ifé. Oduduwa tinha duas esposas. Olokun, a primeira, não engravidava e indicou a amiga Osaara, que deu um filho a ele. A rivalidade entre as duas fez Olokun deixar Ifé, e Osaara foi atrás. Olokun virou o oceano Atlântico, e Osaara virou a lagoa de Lagos. As duas águas seguem vizinhas até hoje.
Segundo a mesma matéria, Osaara tem santuário no bairro de Moore, em Ifé. A festa dela é em maio, dura cerca de cinco dias e abre o calendário dos orixás da cidade, logo depois da festa de Olokun. Nenhum autor iorubá que lemos diz que Osaara e Olossá são a mesma divindade. São duas tradições sobre a origem da mesma lagoa. Sobre Oduduwa, leia Oduduwa, a cabaça da criação.
O que os estrangeiros anotaram
Em 1894, o oficial britânico A. B. Ellis descreveu Olossá como esposa do deus do mar, com templos na margem da lagoa de Lagos e crocodilos como mensageiros. Em 1910, o comerciante R. E. Dennett anotou «Olossá, dona da lagoa que evapora», ao lado de «Olokun, dono do mar que murmura». São registros de quem olhava de fora, sem dizer quem eram os informantes, e precisam ser lidos com cuidado.
E no Brasil?
Nos mitos reunidos por Reginaldo Prandi, quando o corpo de Iemanjá se rompe, nascem Olocum, o mar, e Olassá, a deusa dos lagos. Pierre Verger conta que Olokun e Olossá disputaram as águas e que Olossá ficou como a segunda de Olokun. Essa lista de filhos de Iemanjá vem do livro de Ellis. Dennett contou que seus informantes iorubás não a confirmavam. Sobre Iemanjá, leia Iemanjá, a mãe das águas.
Pouco se sabe, com fonte, sobre cores, dia, saudação ou culto de Olossá no Brasil, e isso varia de casa para casa. O fundamento é ensinado dentro do culto, pelo sacerdote ou pela sacerdotisa.
Leia também
- Olokun, o fundo do mar
- Iemanjá, a mãe das águas
- Oduduwa, a cabaça da criação
- Ajê, a orixá da riqueza
- Culto de Ifá: Orunmilá, os babalaôs e os 256 odus
Fontes
- Samuel Ajayi Crowther — A Vocabulary of the Yoruba Language, Londres, 1852 (verbetes «Ossa», «Olosa» e «Aiye»)
- Wande Abimbola — Sixteen Great Poems of Ifá, UNESCO, 1975, pp. 326–327
- YorubaName.com — verbete «Òkúnmẹ́hìntọ̀sà»
- «Olokun, Osaara: The making of Atlantic Ocean, Lagos Lagoon», The Sun, Lagos, 17/05/2018
- Samuel Johnson — The History of the Yorubas, Lagos, CMS, 1921, p. 53
- A. B. Ellis — The Yoruba-speaking Peoples of the Slave Coast of West Africa, Londres, 1894, cap. «Minor Gods»
- R. E. Dennett — Nigerian Studies, Londres, 1910, pp. 101–102
- Flavio José de Paula e Paulo Fernando Carneiro de Andrade — «Iemanjá, da África para o Brasil», Numen (UFJF), v. 26, n. 2, 2023, p. 235 (cita Reginaldo Prandi, Mitologia dos Orixás, 2001, pp. 382–383)
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