Oduduwa (também escrito Odudua ou Odùduwà) é uma das divindades mais antigas dos iorubás. O nome costuma ser traduzido como «a cabaça de onde jorrou a vida». Ao lado de Obatalá, o Oxalá dos terreiros (Oxalá, o orixá da criação), Oduduwa forma o par que está no começo de tudo: Obatalá é o céu, Oduduwa é a terra.
A briga dos sete anéis
Um mito registrado por Reginaldo Prandi, e resumido pelos pesquisadores Robenilson Barreto e Paulo Ceccarelli, explica por que céu e terra vivem separados. No princípio, os dois moravam juntos dentro de uma cabaça, tão apertados que dividiam sete anéis: quem dormia em cima usava quatro, quem dormia embaixo usava três. Obatalá ficava em cima; Oduduwa, embaixo.
Um dia Oduduwa quis dormir em cima e ficar com os quatro anéis. Obatalá não aceitou, os dois brigaram e a cabaça se partiu ao meio. A metade de cima ficou com Obatalá e virou o céu; a metade de baixo ficou com Oduduwa e virou a terra. Desde então os dois vivem longe um do outro.

A cabaça do mundo e a grande mãe
A antropóloga Juana Elbein dos Santos, que estudou os terreiros nagôs da Bahia, descreve a cabaça ritual chamada igbá-odù como uma imagem do universo: a metade de baixo é de Odua, a de cima é de Obatalá. Para ela, os dois representam o par que gera a vida, e Oduduwa é a expressão das Iyá-Mi, as mães ancestrais, o princípio feminino de onde tudo nasce. Sobre elas, leia Iyami Oxorongá, a sagrada divindade feminina.
Os títulos reunidos pelo pesquisador Luiz L. Marins vão no mesmo sentido: Ìyánlá, «a grande mãe», e Ìyáwon, «a mãe de todos». Como Obatalá, Oduduwa é contada entre os orixás funfun, os orixás do branco.
Deusa, rei ou os dois?
Aqui as fontes não concordam, e é melhor dizer isso com clareza. Vários estudiosos tratam Oduduwa como masculino; nos mitos, ora é irmão de Obatalá, ora é sua esposa. Para Marins, a história mistura duas figuras: a divindade da terra e um conquistador de Ilê-Ifé, lembrado como patriarca dos iorubás por ter reunido povos de mesma língua num só reino. Barreto e Ceccarelli também apontam essa confusão entre a deusa e o ancestral humano divinizado.
Quem criou a terra?
Duas versões convivem. Na mais antiga, Obatalá é o único criador. Na que se conta hoje, explica Marins, Oduduwa é quem cria a terra, e Obatalá fica com a criação dos seres humanos e dos seres vivos. A história do saco de terra, da galinha e do camaleão está em A criação do mundo na mitologia iorubá. Quem modela cada cabeça humana nessa oficina é Ajalá (Ajalá, o oleiro que molda o ori).
Oduduwa no Brasil
No Brasil, o culto a Oduduwa é discreto e aparece em poucas casas. Cores, dia da semana, saudação e comidas não têm registro firme nas fontes que consultamos, e por isso não estão aqui: o fundamento de cada orixá é ensinado dentro do terreiro, pelo sacerdote ou pela sacerdotisa.
Leia também
- Oxalá, o orixá da criação
- A criação do mundo na mitologia iorubá
- Iyami Oxorongá, a sagrada divindade feminina
- Ajalá, o oleiro que molda o ori
- Culto de Ifá: Orunmilá, os babalaôs e os 256 odus
Fontes
- Robenilson Moura Barreto e Paulo Roberto Ceccarelli — «Mitos e representatividades: a expressão da sexualidade em culturas africanas», Reverso, ano 41, n. 78, dez. 2019, pp. 79–81 (resume o mito de Reginaldo Prandi, Mitologia dos orixás, 2001, p. 424, e cita Juana Elbein dos Santos, Os Nàgô e a morte)
- Luiz L. Marins — «Òrìsà dídá ayé: Òbátálá e a criação do mundo iorubá», África (USP), v. 31-32, 2011/2012, p. 131






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