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Ajalá: o oleiro que molda o ori, a cabeça de cada um

Dezenas de potes de barro feitos à mão secando ao sol em Abeokuta, na Nigéria

Antes de nascer, conta a tradição iorubá, cada pessoa passa por uma oficina no Orum e escolhe a cabeça com que vai viver. Quem faz essas cabeças é Ajalá, o oleiro do ori. A cantiga «Ajalá mori mori moió», que quer dizer «Ajalá fez o meu ori, me germinou e fez crescer», guarda essa história.

Quem é Ajalá

Nas narrativas de Ifá, a criação do ser humano é dividida em três tarefas. Obatalá, o nosso Oxalá, modela o corpo. Olodumarê põe o sopro da vida. E Ajalá faz o ori, a cabeça interior que carrega o destino. O filósofo nigeriano Oladele Balogun registra essa divisão, e a pesquisadora Nílsia dos Santos ouviu o mesmo de um babalaô: no bori, o certo seria louvar Ajalá, Obatalá e Olodumarê.

Ajalá é um artesão habilidoso, mas as histórias o descrevem como distraído. Gosta de beber, vive endividado e, por descuido, faz cabeças de todo tipo: umas boas, outras com defeito. É por isso que nem todo ori é igual.

Orixá, outro ser ou o próprio Oxalá?

Aqui as fontes não concordam, e vale conhecer as versões:

  • Para Balogun, nos poemas de Ifá Ajalá tem papel importante, mas não é orixá: nem todo ser do Orum é divindade.
  • Na fala do babalaô registrada por Nílsia dos Santos, Ajalá é uma divindade do Orum, a que molda a cabeça.
  • No candomblé brasileiro, o pesquisador João Ferreira Dias registra que o bori se dirige a Oxalá, o «oleiro dos oris», também chamado de Ajalá.

Cada casa ensina o seu fundamento. O que todas as versões guardam é o oleiro, o barro e a cabeça.

Os três amigos na casa de Ajalá

Um dos itãs mais contados sobre o ori fala de três amigos, Oriseeku, Orileemere e Afuwape, que foram à casa de Ajalá escolher a cabeça. Todos foram avisados para seguir direto, sem parar no caminho. Os dois primeiros obedeceram e escolheram sozinhos. Afuwape parou para consultar Ifá, e os babalaôs mandaram que ele fizesse um ebó antes da escolha.

Ele fez o sacrifício e saiu da oficina com uma boa cabeça. Os outros dois escolheram cabeças que, na terra, se mostraram um peso. Em algumas versões, Afuwape encontra Ajalá escondido de uma credora e paga a dívida dele; em outras, a dívida nem aparece. O ensinamento é o mesmo: escolher o ori pede cuidado e orientação.

Ori, destino e Orunmilá

Os iorubás falam em três modos de receber o destino: o que se escolhe ajoelhado (àkúnlẹ̀yàn), o que se recebe ajoelhado (àkúnlẹ̀gbà) e o que fica fixado na pessoa (àyànmọ́). Quem tem bom ori, olórí rere, encontra uma vida mais próspera; quem tem mau ori enfrenta mais dificuldades.

Orunmilá é chamado de Ẹlẹ́rìí ìpín, a «testemunha do destino»: estava presente na escolha e, pelo oráculo de Ifá, é quem pode revelar o que cada um escolheu. Se o destino pode mudar é uma discussão antiga. Há quem diga que nem os orixás alteram a escolha, e há quem defenda que o ebó, a consulta e o bom caráter (ìwà) ajudam a cuidar do caminho. Por isso existe o bori, o rito de dar de comer à cabeça. Leia mais em Ori, a cabeça como orixá pessoal.

A cantiga de Ajalá

Na cantiga «Ajalá mori mori moió», Oxalá é louvado como quem fez e sustenta a cabeça, e o canto termina pedindo licença (agô) para o ori. Assista com a letra e a tradução na tela:

Ajalá mori mori moió, cantiga de Oxalá com letra e tradução — Portal Afroxé

Cada casa tem seus costumes, e o fundamento é ensinado dentro dela, pelo sacerdote ou pela sacerdotisa.

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Fontes

Foto da capa: Omoeko Media — Wikimedia Commons, licença CC BY-SA 4.0.

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