A Jurema Sagrada é uma das expressões religiosas de matriz indígena mais antigas do Brasil. Ela nasceu no Nordeste e ainda hoje é forte na Paraíba e em Pernambuco.
O nome vem de uma árvore da caatinga, a jurema-preta (Mimosa tenuiflora). A palavra também nomeia a bebida feita da planta e os próprios rituais. Os juremeiros e juremeiras cultuam mestres, mestras, caboclos e reis.
Vamos conhecer essa história com calma, a partir do que os pesquisadores publicaram.
Uma raiz indígena
Quase todos os estudiosos concordam num ponto: a Jurema tem origem indígena. Ela aparece no Nordeste desde o período colonial.
O historiador Guilherme Medeiros analisou documentos antigos e aponta o uso ritual da jurema a partir do século 18. Uma reportagem do jornal A União situa o primeiro registro nesse mesmo século, no Brejo paraibano.
Pesquisadores ligam essa influência sobretudo aos povos chamados tapuias, do sertão nordestino. O povo Atikum, entre outros, mantém a jurema até hoje, ao lado do toré. Para muitos povos indígenas do Nordeste, ela é também um símbolo de identidade e de luta por direitos.
Nas comunidades indígenas, os ritos permitem ao xamã falar com o mundo dos Encantados. Fumaça de cachimbo, maracá e cantos aparecem em quase todas as cerimônias.
Do catimbó à Jurema Sagrada
No passado, o culto era chamado de catimbó, sobretudo em cidades como Natal e Recife. Segundo Câmara Cascudo, a própria palavra designa o cachimbo usado pelo mestre.
Os primeiros escritos sobre esse culto surgiram nos anos 1930, com Mário de Andrade. Em 1945, o sociólogo Roger Bastide descreveu um ritual e reforçou a origem indígena. Cascudo, por sua vez, via no catimbó um encontro de três fontes: a bruxaria ibérica, o saber indígena sobre a jurema e os ritmos bantos.
Por décadas, a Jurema foi tratada com desprezo, chamada de «feitiçaria» e «baixo espiritismo». Hoje, ela é estudada como religião, e os próprios praticantes também escrevem sobre ela.
Mestres, mestras, caboclos e reis
Os mestres e as mestras são as entidades centrais da Jurema. Segundo a antropóloga Maria Acselrad, foram pessoas que viveram aqui. Muitos tiveram vida boêmia, intensa e brava.
Os caboclos são diferentes. Na tradição, eles se encantaram sem passar pela morte, numa árvore, num cipó ou numa raiz. São lembrados como chefes, guerreiros e curandeiros.
Há também os reis. Um juremeiro de João Pessoa, ouvido por pesquisadores, chama o Rei Salomão de rei das cidades da Jurema. Entre os caboclos, há nomes como o rei de Orubá.
As cidades encantadas
Os juremeiros falam de um reino encantado, os «encantos» ou «cidades da Jurema». A árvore é a «cidade» do mestre, símbolo de morte e renascimento, segundo o antropólogo Sandro Salles.
Aqui as fontes divergem. Cascudo e Salles falam em 12 cidades e 36 mestres principais. Já a pesquisa de campo de Luís Felipe Mont’mor encontrou um número maior de cidades e ideias mais variadas.
Alhandra e o Acais
Alhandra, no litoral sul da Paraíba, é chamada de «berço da Jurema». A cidade fica onde existia a antiga aldeia Aratagui.
Ali fica o Acais, ligado ao Mestre Inácio Gonçalves de Barros e a sua filha, Maria do Acais. O lugar guarda a capela de São João Batista e o túmulo do Mestre Flósculo.
Em 2015, o órgão estadual de patrimônio, o Iphaep, tombou o Acais e o sítio Estivas. Em julho de 2025, a Lei estadual 13.760 registrou a Jurema como patrimônio imaterial da Paraíba. Em setembro de 2025, foi entregue ao Iphan o pedido de registro nacional. Até a publicação deste artigo, não encontramos decisão sobre ele.
Os locais sagrados também sofreram intolerância. Houve corte de pés de jurema consagrados.
A Jurema e a Umbanda
A Umbanda chegou à região por volta dos anos 1960. Muitas casas de jurema passaram a ser registradas como centros de umbanda. Pesquisadores chamam isso de «umbandização da jurema».
Hoje, muitos terreiros cultuam a jurema ao lado dos orixás, de Exus, Pombagiras e pretos-velhos. Mesmo assim, as fontes destacam que a Jurema manteve fundamentos próprios. Um sacerdote ouvido por Luiz Assunção a chamou de «irmã mais velha da Umbanda».
Cada casa tem seus costumes, e o fundamento é ensinado dentro dela, pelo sacerdote ou pela sacerdotisa.
Leia também
- Umbanda: as linhas e as entidades — Caboclos, Pretos Velhos, Crianças, Exus e Pombagiras
- Umbanda: Uma Religião Brasileira
- Cabula: o culto banto do Espírito Santo que abriu caminho para a Umbanda
Fontes
- Ministério Público Federal (PR-PB) — MPF, MPPB e MPC promovem evento sobre liberdade religiosa e proteção ao culto da Jurema Sagrada em Alhandra (PB), MPF, 2025
- Lilian Viana — A fé que nasce sob a Jurema Sagrada, jornal A União (Governo da Paraíba), 2025
- Marcus Vinícius Barreto — Jurema (verbete), Enciclopédia de Antropologia, USP, 2019
- Maria Acselrad — Jurema é corpo, não é cabeça: encantamento, aprendizado e transformação entre caboclos e caboclinhos, Locus: Revista de História (UFJF), 2024
- Luís Felipe Cardoso Mont’mor e Rafael Trindade Heneine — Aspectos da Quimbanda no Catimbó-Jurema paraibano, Diversidade Religiosa (UFPB), 2019
- Luiz Carvalho de Assunção — O reino dos mestres: a tradição da jurema na umbanda nordestina, Pallas, 2006 (registro de catálogo; citado por via de Mont’mor e Acselrad)
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