Xangô é o orixá do trovão, do fogo e da justiça. Na tradição iorubá, foi rei: o quarto alafin — soberano — de Oyó, uma das cidades mais poderosas da história da África ocidental. É o orixá dos que lutam pelo que é justo, dos que governam, dos que julgam. Quando o trovão ressoa, muita gente de axé levanta a cabeça e saúda: Kaô Kabecilê!
Quem é Xangô
Xangô é a realeza em pessoa: vaidoso, elegante, dono de uma força que se impõe. Seu poder é o da palavra justa e do raio que cai de surpresa. Nas histórias, é casado com três orixás — Iansã (Oyá), que divide com ele o domínio do fogo e dos ventos; Oxum, a mais amada; e Obá, a guerreira. Por isso tantos mitos de Xangô são, também, mitos delas (leia Santa Bárbara e Iansã).
O mito: «o rei não se enforcou»
Pierre Verger reuniu a tradição de Oyó sobre o fim do reinado de Xangô. Depois de uma série de conflitos e de um incêndio que destruiu seu palácio, provocado pelo próprio poder de atrair raios, o rei deixou a cidade e desapareceu em Kossô. Seus inimigos espalharam que ele tinha se enforcado. Seus seguidores responderam com uma frase que virou o nome de um dos seus títulos: Obá kò so — «o rei não se enforcou». Xangô não morreu: tornou-se orixá, e quem duvidasse disso sentia a força do trovão.
Reginaldo Prandi registra outra história muito contada nos terreiros: a de Obá, que, querendo agradar o marido, seguiu um conselho enganoso de Oxum e cortou a própria orelha para pôr na comida dele. Xangô se desgostou, Obá e Oxum brigaram — e por isso, em muitas casas, as duas não são saudadas lado a lado.
Símbolos, cores, dia e saudação
- Cores: vermelho e branco (em algumas casas, marrom);
- Dia: quarta-feira;
- Saudação: Kaô Kabecilê! — «venham ver o rei»;
- Símbolo: o oxê, machado de duas lâminas;
- Elementos: o trovão, o fogo, as pedreiras e a pedra de raio; sua comida mais conhecida é o amalá, feito com quiabo.
Cores, dias, saudações e oferendas variam de nação para nação e de casa para casa. O que está aqui é o mais comum no candomblé de nação ketu e na Umbanda; o fundamento de cada orixá é ensinado dentro de cada terreiro, pelo sacerdote ou pela sacerdotisa da casa.
Xangô no Brasil
O nome de Xangô ficou tão forte no Brasil que, em Pernambuco e em Alagoas, a religião dos orixás passou a ser chamada simplesmente de Xangô — o «Xangô do Nordeste». No sincretismo, foi aproximado de São Jerônimo, de São João e de São Pedro, conforme a região. Em Salvador, um dos terreiros mais conhecidos do país, o Ilê Axé Opô Afonjá, é dedicado a Xangô. Na Umbanda, Xangô comanda a linha da justiça, e seus pontos falam de pedreira, de cachoeira e de lei.
Cante para Xangô
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Fontes
- Pierre Fatumbi Verger — Orixás: deuses iorubás na África e no Novo Mundo (Corrupio, 1981)
- Pierre Fatumbi Verger — Lendas Africanas dos Orixás (Corrupio)
- Reginaldo Prandi — Mitologia dos Orixás (Companhia das Letras, 2001)






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