Ogum é o orixá do ferro, da guerra, do trabalho e da tecnologia. Foi ele, contam os iorubás, quem ensinou os seres humanos a forjar o metal — e, com o metal, a fazer ferramentas, plantar, construir e se defender. É o orixá que abre os caminhos: na roda do candomblé, depois de Exu, é ele quem vem primeiro, porque é Ogum quem vai à frente, com o seu facão, abrindo a mata para os outros passarem.
Quem é Ogum
Na África, Ogum é cultuado em muitas cidades iorubás, mas a tradição o liga sobretudo a Irê, onde teria sido rei — por isso é chamado de Onirê, «o senhor de Irê». É o patrono de todos que trabalham com o ferro: ferreiros, caçadores, agricultores, soldados e, hoje, motoristas, mecânicos, engenheiros. Onde há ferramenta, há Ogum. É irmão de Exu e de Oxóssi em muitas histórias, e os três aparecem juntos em vários mitos.
O mito: o dia de silêncio em Irê
Pierre Verger registrou uma das histórias mais conhecidas de Ogum. Depois de muito tempo guerreando longe, ele voltou a Irê com sede e cansado. Mas era um dia em que, por costume, todos deviam ficar em silêncio, e ninguém o saudou nem lhe ofereceu vinho de palma. Ogum entendeu aquilo como desprezo e, furioso, atacou o povo da cidade. Quando finalmente lhe explicaram o motivo do silêncio e lhe trouxeram o vinho que queria, ele se arrependeu do que tinha feito. Não quis mais viver como rei: cravou a espada no chão e desapareceu na terra, tornando-se orixá.
A história ensina o que o povo de axé diz sobre Ogum: é generoso e protetor, mas não suporta a ingratidão nem a injustiça — e sabe reconhecer o próprio erro.
Símbolos, cores, dia e saudação
- Cores: azul-escuro no candomblé ketu; em muitas casas de Umbanda, vermelho ou verde;
- Dia: terça-feira;
- Saudação: Ogunhê! (Ogum iê!);
- Símbolos: a espada, o facão e as ferramentas de ferro;
- Elementos: o ferro, o mariô (a folha do dendezeiro desfiada, que protege as portas dos terreiros), a estrada, a mata.
Cores, dias, saudações e oferendas variam de nação para nação e de casa para casa. O que está aqui é o mais comum no candomblé de nação ketu e na Umbanda; o fundamento de cada orixá é ensinado dentro de cada terreiro, pelo sacerdote ou pela sacerdotisa da casa.
Ogum no Brasil
No sincretismo, Ogum foi aproximado de Santo Antônio na Bahia e de São Jorge no Rio de Janeiro, onde o 23 de abril é dia de festa, missa e alvorada — com muita gente de axé misturada aos devotos católicos. Na Umbanda, Ogum é um dos orixás mais presentes, chefe de uma linha de guerreiros que vencem demandas e protegem os caminhos; os pontos cantados para «Ogum Beira-Mar», «Ogum Megê» e outros nomes são conhecidos em todo o país.
Cante para Ogum
Leia também
- As principais nações de Candomblé
- Umbanda: uma religião brasileira
- A história do Candomblé no Brasil
- Deuses primordiais da mitologia africana
Fontes
- Pierre Fatumbi Verger — Orixás: deuses iorubás na África e no Novo Mundo (Corrupio, 1981)
- Pierre Fatumbi Verger — Lendas Africanas dos Orixás (Corrupio)
- Reginaldo Prandi — Mitologia dos Orixás (Companhia das Letras, 2001)






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