Nenhum orixá é tão importante — e tão mal compreendido — quanto Exu. Ele é o mensageiro: leva os pedidos dos seres humanos aos orixás e traz as respostas de volta. Sem Exu, dizem os mais velhos, nada se comunica, nada se move, nada acontece. Por isso, em toda festa de candomblé, ele é o primeiro a ser saudado e o primeiro a comer.
Quem é Exu
Exu é o dono das encruzilhadas, das estradas, das portas e dos mercados — de todo lugar onde as coisas se cruzam e se trocam. É o princípio do movimento: o que faz a vida andar. Também é esperto, brincalhão e imprevisível; muitas histórias mostram Exu testando as pessoas e revelando quem age com verdade e quem age com falsidade. Ele não é bom nem mau: cobra o que é combinado e cumpre o que promete.
Na tradição iorubá, Exu é inseparável do sistema de Ifá, porque é ele quem leva as oferendas indicadas pelo oráculo (leia O culto de Ifá). Na nação jeje, a força equivalente é chamada de Legba; no candomblé de Angola, de Aluvaiá ou Bombogira.
O mito: Exu come primeiro
Reginaldo Prandi registrou em Mitologia dos Orixás a história que explica por que Exu recebe sempre a primeira parte. Exu nasceu com uma fome que não tinha fim. Comia tudo o que encontrava: os animais, as plantações, as bebidas — e, quanto mais comia, mais fome sentia. O mundo foi ficando vazio, e Orunmilá precisou agir para conter aquela fome que ameaçava acabar com tudo.
A desordem só terminou com um acordo: dali em diante, em toda oferenda feita a qualquer orixá, Exu comeria primeiro. Em troca, levaria os pedidos aonde precisassem chegar e guardaria a casa. É por isso que, no candomblé, o padê de Exu abre as cerimônias: quem não dá a Exu a sua parte não vê o seu pedido caminhar.
Exu não é o diabo
Durante a escravidão, missionários e senhores católicos viram em Exu — dono das encruzilhadas, sem pudor e sem medo — a figura do diabo cristão. O historiador e sociólogo Reginaldo Prandi mostrou como essa associação foi construída aos poucos, do mensageiro iorubá ao «diabo» do imaginário brasileiro. Ela é falsa: na religião dos orixás não existe a ideia de um ser do mal absoluto. Exu é orixá, cultuado com respeito, e o preconceito contra ele está na raiz de muitos ataques a terreiros hoje.
Na Umbanda e na Quimbanda, a palavra Exu também nomeia as entidades da linha da esquerda, como Tranca-Rua, Sete Encruzilhadas e Tiriri, ao lado das Pombagiras. São espíritos que trabalham na proteção e na abertura de caminhos — outro assunto, que o Portal vai tratar em artigo próprio.
Símbolos, cores, dia e saudação
- Cores: vermelho e preto;
- Dia: segunda-feira;
- Saudação: Laroiê! e Exu mojubá!;
- Símbolo: o ogó, bastão de madeira enfeitado com cabaças e búzios;
- Elementos: a encruzilhada, a porta, o mercado, o dendê e a farofa do padê.
Cores, dias, saudações e oferendas variam de nação para nação e de casa para casa. O que está aqui é o mais comum no candomblé de nação ketu e na Umbanda; o fundamento de cada orixá é ensinado dentro de cada terreiro, pelo sacerdote ou pela sacerdotisa da casa.
Cante para Exu
O xirê — a roda dos orixás — começa sempre com Exu. Na série «Siré Orisás» do canal, ele é o primeiro:
Leia também
- Ogum, o orixá do ferro e dos caminhos
- O culto de Ifá
- As principais nações de Candomblé
- Religiões afro-brasileiras
Fontes
- Reginaldo Prandi — Mitologia dos Orixás (Companhia das Letras, 2001)
- Reginaldo Prandi — «Exu, de mensageiro a diabo: sincretismo católico e demonização do orixá Exu», Revista USP, n. 50 (2001)
- Pierre Fatumbi Verger — Orixás: deuses iorubás na África e no Novo Mundo (Corrupio, 1981)






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