Entre todos os orixás, nenhum é tão ligado à criação quanto Oxalá. Chamado de Obatalá na África iorubá — «o rei do pano branco» — e de Orixalá, ele é o pai que modela os seres humanos e o mais velho dos orixás funfun, os orixás do branco. Paz, calma, paciência e pureza são as palavras que o povo de axé usa para falar dele. Na roda do candomblé, é o último a ser saudado: o xirê, que começa com Exu, termina com Oxalá.
Quem é Oxalá
Na tradição iorubá, Olodumarê (o Ser Supremo — veja por que a mitologia iorubá é monoteísta) entregou a Obatalá a tarefa de criar o mundo e, depois, a de dar forma aos corpos humanos. Por isso Oxalá é o orixá da criação e da existência. Não é um orixá do movimento, da guerra ou da paixão, como tantos outros: é o da calma, do respeito aos mais velhos e da justiça serena.
Ele se apresenta de dois jeitos principais. Oxalufã é o Oxalá velho, que anda curvado, apoiado no opaxorô, um grande cajado de metal branco enfeitado. Oxaguiã é o Oxalá jovem e guerreiro, ligado ao inhame pilado e à espada. Os dois vestem branco, e a tradição os trata ora como o mesmo orixá em idades diferentes, ora como orixás próximos — cada casa ensina do seu jeito.
O mito: o saco da criação
Uma das histórias mais conhecidas de Oxalá foi registrada por Pierre Verger e por Reginaldo Prandi. Olodumarê entregou a Obatalá o saco da criação, com tudo o que era preciso para fazer a terra firme sobre as águas. Antes da viagem, ele deveria fazer as oferendas pedidas, mas não as fez. No caminho, sentiu muita sede, furou o tronco de uma palmeira e bebeu o vinho de palma até adormecer.
Enquanto Obatalá dormia, Odudua pegou o saco, foi até Olodumarê e criou a terra no lugar que viria a ser Ilê-Ifé, a cidade sagrada dos iorubás. Quando acordou, Obatalá recebeu outra missão, igualmente grande: modelar os corpos dos seres humanos. Desde então, contam os mais velhos, o vinho de palma ficou proibido aos seus filhos — uma das quizilas de Oxalá, junto com o dendê e o sal, em muitas casas.
Outra história, contada por Verger, explica um dos ritos mais bonitos do candomblé baiano, as Águas de Oxalá: Oxalufã viajou para visitar Xangô, foi sujado três vezes no caminho, acabou preso injustamente e só foi libertado quando Xangô o reconheceu. Em muitos terreiros, a cada ano, os filhos da casa buscam água em silêncio, vestidos de branco, para lavar os objetos sagrados de Oxalá.
Símbolos, cores, dia e saudação
- Cor: branco — Oxalá é o dono do branco;
- Dia: sexta-feira (daí a tradição da «sexta-feira de branco»);
- Saudação: Epa Babá! — «salve, pai!»;
- Símbolos: o opaxorô de Oxalufã; a espada e a mão de pilão de Oxaguiã;
- Elementos: o ar, o algodão, o caramujo (igbin), a pomba branca.
Cores, dias, saudações e oferendas variam de nação para nação e de casa para casa. O que está aqui é o mais comum no candomblé de nação ketu e na Umbanda; o fundamento de cada orixá é ensinado dentro de cada terreiro, pelo sacerdote ou pela sacerdotisa da casa.
Oxalá no Brasil
Na Bahia, Oxalá foi aproximado do Senhor do Bonfim. Na lavagem das escadarias da Basílica do Bonfim, em Salvador, todo mês de janeiro, as baianas vestidas de branco levam água de cheiro em quartinhas — uma festa católica e afro-brasileira ao mesmo tempo, reconhecida como patrimônio cultural do Brasil. Na Umbanda, Oxalá é o chefe da primeira linha e a força maior, ligada à fé e à paz; o hino da Umbanda fala da luz divina que vem dele.
Cante para Oxalá
A cantiga mais ouvida do canal do Portal Afroxé é justamente para Oxalá — são mais de 3,7 milhões de visualizações:
Leia também
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- As principais nações de Candomblé
- A história do Candomblé no Brasil
- Umbanda: uma religião brasileira
Fontes
- Pierre Fatumbi Verger — Orixás: deuses iorubás na África e no Novo Mundo (Corrupio, 1981)
- Pierre Fatumbi Verger — Lendas Africanas dos Orixás (Corrupio)
- Reginaldo Prandi — Mitologia dos Orixás (Companhia das Letras, 2001)






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