Na mitologia yorubá e no culto de Ifá, o Ser Supremo é chamado Olódùmarè ou Olórun — nas religiões afro-brasileiras, Olorum. É o Dono do Orun (o céu) e o Criador do Orun e do Aiye, o céu e a terra. É associado fortemente à cor branca e controla tudo: é o Deus Pai, criador de tudo e de todos. Embora seja reconhecido e louvado como Único e Soberano, não existe templo individual para Ele. De acordo com um dos mitos da criação yorubá, Ele delegou os poderes de criação do Aiye ao seu primeiro e mais velho filho, Orisanla, também chamado Obatalá.
Kosi oba kan afi Olorun — Não há outro senhor senão Deus.
ditado yorubá
Ao contrário do que muita gente diz, a mitologia yorubá é monoteísta: acredita em um único Deus soberano, criador dos céus e da terra, que delegou a criação do mundo e dos seres humanos às suas divindades — os orixás. Neste artigo, explicamos de onde vem essa leitura, quem são os orixás nessa história e por que o assunto ainda rende debate entre os estudiosos.
Os nomes de Deus: Olódùmarè, Olórun e Olofin
Os yorubás chamam o Ser Supremo por vários nomes, e cada um destaca um aspecto dele:
- Olódùmarè — o nome mais antigo e solene, usado para o Deus eterno, de quem tudo vem;
- Olórun (no Brasil, Olorum) — «o dono do Orun», o senhor do céu;
- Olofin (ou Olofi) — nome que aparece sobretudo nos relatos de Ifá e na tradição cubana, ligado ao Deus que se relaciona com a criação.
Os estudiosos não concordam sobre qual nome é mais antigo nem sobre como dividir esses aspectos. Uma observação, porém, é comum: os três nomes falam do mesmo Ser Supremo, e não de deuses diferentes.
Um Deus sem templo — e os orixás como intermediários
Um dos traços mais lembrados da crença em Olódùmarè é que não há imagem, altar nem oferenda feita diretamente a Ele. Deus está acima de tudo e é alcançado por meio dos orixás, que recebem o culto, as festas e as oferendas. Por isso há quem compare os orixás a ministros de um rei: cada um cuida de uma parte do mundo — as águas, as matas, o trovão, a justiça —, mas todos respondem ao mesmo Senhor.
Nessa estrutura, Exu tem papel central como mensageiro: é ele quem leva os pedidos e as oferendas e estabelece a comunicação entre o Aiye e o Orun. Exu é guardião da comunicação e do movimento — não é o diabo e não tem nada a ver com a figura do demônio de outras religiões.
A forma de cultuar cada orixá, as cantigas e os preceitos variam de nação para nação e de casa para casa: cada casa tem o seu fundamento, ensinado pelos mais velhos.
A criação do mundo nos mitos yorubás
Os mitos da criação são contados de mais de um jeito, conforme a região e a linhagem de quem conta. Na versão mais difundida, Olódùmarè entrega a Obatalá (Oxalá) a tarefa de criar a terra firme sobre as águas primordiais. Obatalá, porém, bebe vinho de palma, adormece no caminho, e é Odùduwà (Odudua) quem completa a obra: espalha a terra sobre as águas, e uma galinha a espalha com os pés, formando o chão. O lugar onde isso aconteceu seria Ilé-Ifẹ̀, considerada pelos yorubás o berço do mundo.
Mesmo quando não cria a terra, Obatalá recebe de Olódùmarè outra missão: modelar os seres humanos do barro. O sopro da vida, porém, só Deus dá. Em todas as versões, o padrão se repete: Olódùmarè decide e os orixás executam — e é justamente isso que sustenta a leitura monoteísta.
Monoteísmo? O que dizem os estudiosos
A ideia de que a religião yorubá é monoteísta ganhou força com o teólogo nigeriano E. Bolaji Idowu, no livro Olódùmarè: God in Yoruba Belief (1962). Para ele, a crença yorubá é um «monoteísmo difuso»: há um só Deus supremo, e o poder dele se espalha pelas divindades que lhe obedecem.
Outros pesquisadores discordam. Há quem prefira falar em henoteísmo (um Deus maior acima de outros deuses), e há quem critique a própria tradução de Olódùmarè como «Deus», por achar que ela encaixa a crença yorubá no molde das religiões cristã e muçulmana. Esse debate continua aberto na universidade.
Para quem vive a religião, porém, a resposta costuma ser simples: existe um Deus único, criador de tudo, e os orixás são as forças da natureza e os ancestrais divinizados por meio dos quais esse Deus se faz presente no dia a dia. As duas coisas convivem sem contradição.
Olorum no Brasil: no Candomblé e na Umbanda
No Candomblé de nação ketu, Olorum (ou Olodumare) é o Deus supremo, e o culto continua dirigido aos orixás — como na tradição yorubá. Nas nações de origem banto, o Ser Supremo é chamado Nzambi (Zambi), e na nação jeje, Mawu.
Na Umbanda, Deus costuma ser chamado de Olorum ou Zambi, e a religião se apresenta abertamente como monoteísta: acima dos orixás, dos guias e das entidades, há um só Deus. Os orixás são vistos como forças e irradiações divinas, e os guias como espíritos que trabalham sob a proteção deles.
Para resumir
- Olódùmarè, Olórun e Olofin são nomes do mesmo Deus supremo dos yorubás;
- Deus não recebe culto direto: o culto vai aos orixás, que agem em nome dele;
- Exu é o mensageiro entre o mundo dos humanos e o Orun — nunca um demônio;
- nos mitos, Olódùmarè decide e os orixás executam a criação;
- os estudiosos debatem se isso é monoteísmo, monoteísmo difuso ou henoteísmo — para quem vive a fé, há um só Deus.
Fontes
- IDOWU, E. Bolaji. Olódùmarè: God in Yoruba Belief. Londres: Longmans, 1962.
- VERGER, Pierre Fatumbi. Orixás: deuses iorubás na África e no Novo Mundo. Salvador: Corrupio, 1981.
- PRANDI, Reginaldo. Mitologia dos Orixás. São Paulo: Companhia das Letras, 2001.
- ASANTE, Molefi Kete; MAZAMA, Ama (org.). «Olorun». Encyclopedia of African Religion. Thousand Oaks: SAGE, 2009.
- OFUASIA, Emmanuel. «Monotheism and Metaphysics in the Yorùbá Thought System: A Process Alternative».
- IGBOIN, Benson Ohihon. «Is Olodumare, God in Yoruba belief, God?». Kanz Philosophia, 2014.






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